Olhe para você.
Veja no que você se transformou.
Você passa a noite ressonando em cima de um colchão macio como as canelas da Fernanda Lima e debaixo de cobertores quentes como o olhar da Megan Fox. Seu quarto provavelmente é climatizado. Você não saberia mais viver sem Split e controle remoto. Seu travesseiro é perfeito para a curva do seu pescoço, você tem dificuldades de dormir quando está sem ele. Ao levantar-se, você calça suas confortáveis chinelas de feltro, desliza para o banheiro da sua suíte, escova os dentes com um creme sabor tutti frutti e faz gargarejos com um antisséptico bucal sabor menta. Você senta à mesa do café da manhã e à sua frente já está deitada no pires de porcelana uma fatia de mamão-papaia limpa de sementes. Ao lado, aguardam um copo de suco de laranja, uma xícara de café fumegante e uma fatia de pão preparado com sete grãos, suavemente besuntada com geleia de amoras.
Assim você começa o seu dia. Depois, você sai por aí dentro de suas calças jeans e sua camisa polo, entra no seu carro com direção hidráulica e atende ao celular. Ao desligar, pensa nos seus compromissos e suspira:
- Que dureza, que dia a dia corrido, o meu. Essa vida é mesmo uma selva!
Uma selva?! Vida dura?! Você é um efeminado, isso sim! Você perdeu o contato com o cerne da vida! Com o barro da existência. Você é o produto acabado, aliás mal-acabado, dessa distorção da ordem natural das coisas que se chama Civilização. Porque as coisas não tinham de ser assim. Não eram assim. Na maior parte do tempo da existência do homem na Terra, tudo era visceral, tudo era simples. Você não sentiria falta de seu travesseiro fofo, porque estaria acostumado a apoiar a cabeça numa pedra dura. Você também não sentiria falta do celular, porque, juro por Deus, houve um tempo em que as pessoas conseguiam viver sem celular.Você seria um nômade. Não teria casa, não plantaria, nem colheria. Não moraria em nenhum país, estado ou cidade porque não existiriam países, estados e cidades. Não existiriam leis. A propriedade estaria limitada a alguns poucos bens que você pudesse carregar. Você poderia pegar o que quisesse da natureza, sem ter de pedir permissão a quem quer que fosse, porque nada seria de ninguém e ninguém seria de ninguém.
Haveria algumas desvantagens, é claro: você provavelmente morreria jovem, já que a medicina não seria muito desenvolvida, não existiria penicilina, nem planos de saúde, nem check-up, nem, oh, Cristo!, Engov. Em compensação, você poderia fazer sexo com quem bem entendesse, quando bem entendesse e onde bem entendesse, você não trabalharia, não teria chefe nem horário para acordar ou dormir, você não ficaria preso em engarrafamentos e não teria de vestir terno e gravata nos casamentos porque, e isso é especial, NÃO HAVERIA CASAMENTO!
Já pensou? Não haveria casamento, nem noivado, nem namoro, nada disso, por que ninguém entenderia o conceito de, cruz credo, monogamia. As pessoas viveriam em regime de regime algum, em liberdade total, sem família, sem posses, sem leis. Os filhos seriam de todo o clã, bem como a comida e os poucos utensílios. Pense em todas as coisas dispensáveis da vida, como a política e a economia. Nada disso existiria. A vida seria só viver, como deve ser.
Foi assim um dia, por muitos dias.
Por que mudou?
O que fez de você o que você é hoje?
Aí está: foi um movimento, um único movimento em direção ao conforto. Alguém resolveu parar. Cansou de deslocar-se de um lugar para outro, encontrou um terreno perto de um rio, com clima ameno e algum bosque nas imediações. Ali ele não precisava nem plantar. Só precisava colher algumas frutas e raízes e cuidar de seus animais. Mas, para ficar ali, ele precisaria levantar uma casa. No começo, certamente apenas um teto. Mas essa foi a diferença. No momento em que o engenho humano foi empregado para construir o conforto inaugural, no momento em que o homem pela primeira vez modificou a natureza em seu benefício, foi como uma faísca iniciando um incêndio. Porque, depois do teto, o homem deduziu que poderia erguer paredes para proteger-se do vento. Em seguida, compreendeu que, se abrisse janelas nas paredes, teria um ambiente arejado e iluminado. Para construí-las, precisaria de ferramentas. E tudo começou. Uma facilidade levou a outra necessidade, que levou a uma invenção, que fez o homem compreender que poderia inventar mais para criar outras facilidades que satisfariam outras necessidades. Assim por diante. E agora você bebe refrigerantes diet e aquece o quiche no forno de micro-ondas, você se irrita porque sua TV não tem HD e porque seu celular não tem 3G. Você se amolentou nas amenidades da Civilização.
Mas a Civilização só ergueu amenidades em torno do homem porque, antes, em torno do homem havia dificuldades. A Civilização surgiu onde a vida era precária, mas nem tanto. Não por acaso, brotou às margens de alguns rios. Não quaisquer rios, mas rios com uma geografia particular.
Por que a Civilização não surgiu ao longo do caudaloso Amazonas? Ou do bucólico Reno? Por que surgiu entre o Tigre e o Eufrates e ao comprido do Nilo?
Resposta: porque ao longo do caudaloso Amazonas e do bucólico Reno a Civilização era dispensável. Os homens tinham caça e coleta em abundância por espaços aparentemente infinitos. É do que precisam os nômades.
Peguemos um exemplo de nômades clássicos: os índios brasileiros. A forma de vida deles é bastante simples. Um grupo de índios se estabelece em um local em que haja água e caça em abundância. Ali eles pescam, caçam e colhem. Não erguem edifícios, não rasgam estradas, não plantam, nem aram a terra. Apenas tiram da Natureza o que a Natureza proporciona. Se você é ecologicamente correto, deve estar suspirando de nostalgia e ouvindo os passarinhos cantando, só de pensar nos primeiros donos da Terra Brasilis. Ilusão sua. Os índios não eram nada ecológicos. Durante sua estada no local, exauriam todos os recursos sem dó nem pejo. Depois que o lugar estava infestado de lixo e quase sem animais para caçar, eles se mudavam com suas tangas e tacapes para devastar outro terreno. Por maldade? Por má intenção? Não. Porque simplesmente era assim. Toda essa história de consciência ecológica é algo muito recente, que, como tudo na vida, surgiu de novas necessidades humanas.
Necessidades.
Nas margens do Nilo e entre o Tigre e o Eufrates havia mais necessidades e menos fartura. Não havia tanto espaço, nem Natureza tão exuberante. A área tornada fértil pelas cheias do Nilo se estendia, em média, por 15 quilômetros. A leste e a oeste espalhavam-se, ameaçadoras, as areias do deserto. Na região do Tigre e do Eufrates, mais ou menos a mesma situação: uma faixa de vida rodeada pela aridez, pelo calor sufocante e pelos animais peçonhentos.
A vida nômade, portanto, era quase inviável. A região não era dotada de recursos suficientes para esse confortável meio de sobrevivência. Os povos que ali se estabeleceram compreenderam que não poderiam ficar se mudando a todo momento. Não poderiam mais ser nômades.
A Civilização era necessária.
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