16 de setembro de 2011

A História do Mundo – Capítulo 18

A TERRÍVEL ORDEM DE DEUS
Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que aquele deus não era exatamente o deus dos cristãos. Aquele deus, o “Inefável”, era definido pelas consoantes hebraicas YHVH. Um deus tão temido que Seu nome não poderia ser pronunciado. Mesmo assim, pronunciaram. Provido de consoantes, YHVH tornou-se Javeh, aportuguesado para Javé e suavizado para Jeová. Um ex-centromédio do Grêmio que protegia muito bem a zaga, Jeovânio, prestava, com seu nome, homenagem a Jeová.
Jeová, como você já sabe de sobejo, era o deus do Velho Testamento, denominação que só existe para os cristãos. Para os judeus, chamar o Velho Testamento de Velho Testamento seria admitir que existe um Novo Testamento. Para eles não existe. Para eles, a Bíblia é formada apenas pelos 46 livros que, na essência, ficaram prontos 200 anos antes de Jesus nascer. Para os cristãos são entre 70 e 73 livros, dependendo da vertente.
Na Bíblia hebraica, o Tanah, o deus é muito diferente daquele descrito por Jesus. Ele é um deus ciumento, colérico e belicoso. O Deus dos Exércitos. Um Deus que escolheu um povo em detrimento dos outros, escolha que, não raro, converteu-se em um fardo para esse povo. Porque Jeová era dado a impingir punições duras, como as que desabaram sobre Sodoma e Gomorra, além de vinganças e provações. A mais cruel de todas, certamente, aquela imposta a Abraão: o filicídio.
A mulher de Abraão, Sara, era estéril. Para não deixar o marido sem descendência, ela foi sensata como deveria ser toda mulher: escolheu, com seus próprios olhos, uma escrava para que se refestelasse com Abraão e, por consequência, reproduzisse. Deu certo. Reproduziram. Foi gerado um menino a quem Abraão deu o nome de Ismael, “Deus ouviu” em hebraico, porque Deus ouvira suas preces e lhe dera um filho.
Porém, quando Sara já tinha 90 anos, e Abraão 100, um anjo apareceu e anunciou que ela ficaria grávida. Ela deu risada. Ficou grávida. Teve o filho, e Abraão chamou-o de Isaac, que significa “ele riu”. No caso, ela riu.
Por essa altura, Ismael tinha 13 anos de idade. Sara, temendo que o menino mais velho se tornasse o principal herdeiro da família, convenceu Abraão a mandá-lo embora, junto com a mãe. Sara deve ter incomodado muito Abraão, você sabe como as mulheres incomodam quando querem uma coisa. Não suportando mais a insistência da mulher, ele expulsou a escrava e o menino para o deserto em condições precárias, munidos com nada mais do que um odre d’água e um pouco de pão. Fosse por Abraão, eles morreriam de sede, mas Jeová providenciou uma fonte d’água, os dois se salvaram e Ismael transformou-se no patriarca de todos os povos árabes, que hoje, ameaçadores, cercam os seus meio-irmãos hebreus por todos os lados.
A ciência, se não chega a confirmar essa história, fornece-lhe um aval. Agora, no século 21, uma pesquisa realizada em conjunto por cientistas de cinco países, entre eles Estados Unidos e Israel, mostrou que palestinos, sírios, libaneses e judeus têm forte parentesco genético entre si. O estudo comparou o DNA de 1.300 homens árabes e judeus de 30 países. Os exames mostraram esses povos possuem um ancestral comum, possivelmente os semitas ocidentais, que teriam habitado o Oriente Médio há pelo menos 4 mil anos. Esse ancestral bem pode ter se chamado Abraão, um nome comum na época.
Mas, voltando ao drama do patriarca: Abraão ficou tão-somente com Isaac como filho. E foi esse filho que Jeová exigiu em sacrifício. Falou, com sua voz de Cid Moreira:
“Abraão! Toma teu filho, teu único filho a quem tanto amas, Isaac, e vai à terra de Moriá, onde tu o oferecerás em holocausto sobre um dos montes que eu te indicarei!”
Abraão obedeceu sem discutir. No dia seguinte, tomou um jumento, dois servos e o filho e foi para o local indicado. Depois de três dias, encontrou o lugar. Amarrou o filho a uma pedra, como se fosse um cordeiro. Empunhou uma faca de bom corte. Ergueu a mão. Estava prestes a degolar o menino, quando Jeová gritou lá de cima com alguma aflição na voz de tenor:
“Abraão! Abraão! Não estendas tua mão contra o menino e não lhe faças nada! Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu próprio filho, teu único filho!”
Era um teste!
Agora pense no que representa essa história. Eu, se fosse Abraão, recusaria com veemência o pedido do Senhor. Diria:
“Que tipo de divindade é você, que pede o assassinato de uma criança?”
E se Ele insistisse, eu repetiria:
“Não! Pode arranjar outro patriarca!”
Mas, se eu fosse adiante, amarrasse o menino e só tivesse minha mão assassina detida no último instante, aí sim me enfureceria. Xingaria-O:
“O Senhor não sabe de tudo? Não é onisciente, onipotente e onipresente? Não vê tudo, inclusive dentro dos corações dos homens? Então, que espécie de cilada é essa? Foi só para me torturar? Foi só por sacanagem? Pode arranjar outro patriarca!”
Eu não seria um bom protagonista para essa história, portanto. Porque o autor da história, o que ele pretendia com ela era exaltar a fé de Abraão, para que essa fé servisse de exemplo e guia a todo um povo, como serviu.
A fé, era isso que o autor queria propalar. A fé, que é base de todas as religiões. A fé, que, Mencken já definiu, é a crença ilógica na ocorrência do improvável. Foi essa fé que manteve unido o povo hebreu por quase 40 séculos. A fé, que existe dentro de cada homem, nada mais é do que a necessidade de acreditar em algo além do homem, em uma razão excelsa para existir. O autor da Bíblia precisava instilar uma fé inamovível, extrema, inabalável, completa, caso contrário não conseguiria manter unido o seu povo. E, o mais importante, não conseguiria dar seguimento ao projeto da Civilização.
Isso é fundamental. Isso é decisivo. A Civilização é antinatural. A Civilização é uma violência. Tudo, no homem, chama o homem para a vida que ele levava antes da Civilização. O homem quer comer e beber o que bem entender, quando bem entender, da forma que bem entender; o homem quer tomar para si o que deseja; e, sobretudo, o homem quer fazer sexo sem restrições. Mas ele não pode! Por que não pode? Porque a Civilização impede. Mas a Civilização não existiu desde sempre na história do mundo. A Civilização é uma novidade de 12 mil anos. Como a Civilização conseguiu reprimir esses desejos humanos?
Para que a Civilização vencesse, como venceu, seria preciso um apelo muito poderoso, algo sublime, intangível, maior do que a própria natureza:
Deus.
A Lei, hoje, é um acordo entre os homens de uma comunidade. Se você desrespeita a Lei, sofre a repressão dos homens. Logo, você a respeita por medo da repressão. Mas, se você tem a certeza de que não será alcançado pela repressão, o que o impede de tomar à força uma mulher que deseja e possuí-la? O que o impede de ocupar aquela casa que você cobiça? Você diria que isso não é certo. Por que não é certo? Quem disse que não é? Além disso, o certo e o errado são subjetivos. O que é certo aqui pode ser errado ali adiante. Retomo, pois, a pergunta: como a Civilização conseguiu coibir o egoísmo, a ganância e o desejo humano?
Graças a Deus.
Os patriarcas da Humanidade, os homens que fizeram as primeiras leis, precisavam de um respaldo inquestionável. Esse respaldo era Deus. Deus não gosta que os homens matem, roubem ou cobicem a mulher do próximo. Deus deu a Lei aos homens. Mas os homens só cumprirão a Lei se acreditarem em Deus. Se tiverem fé. Uma fé inquebrantável. Uma fé que não admite discussões. A ponto de um homem assassinar o próprio filho, seu único e amado filho, se Deus assim ordenar. Abraão, portanto, é um exemplo: ninguém poderia passar por maior provação do que ele. E ele manteve sua fé. Jamais duvidou. Jamais pensou em fazer ponderações diante de uma ordem do Todo-Poderoso. É o que a Civilização exige todos os dias do homem. O homem tem de renunciar aos seus instintos porque a Civilização determina. Eis o resumo do drama do homem sobre a Terra: o homem passa todos os dias da sua existência lutando contra si mesmo. De um lado, Deus e a Civilização. Do outro, a natureza humana. Que luta desigual. Que tragédia para a natureza humana.

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