Péricles estava fazendo serão. Devia ser umas 10 da noite. O telefone tocou. Estranho, o telefone nunca tocava àquela hora. Péricles olhou para o aparelho. Levantou o fone. Levou-o à orelha.
— Alô?
Então ouviu aquilo. Jesusmariajosé! Nunca tinha ouvido nada parecido na sua vida. Nem nos jogos de futebol da vila. Nem nos bordéis que freqüentara na adolescência. Nunca, jamais ouvira cabedal tão vasto, sortido, rascante e caudaloso de obscenidades. E era uma mulher! Que sabia o nome dele. Pois havia perguntado:
— O Péricles estááá? — assim, com três as. E agora dizia o que queria fazer com certas partes do corpo dele e o que queria que ele fizesse com determinadas partes do corpo dela. Coisas… coisas… coisas gosmentas! Cristo! Logo com Péricles que, está certo, não era nenhum sacristão, já aprontara das suas, mas agora não, agora estava mudado, fazia um ano que só queria saber da mulher dele, fazia um ano que decidira tornar-se um homem responsável, bem casado, sério, honesto e, sobretudo, fiel. E estava conseguindo. Mais um pouco, tinha certeza, e iria reconquistar a confiança quebradiça de sua mulher Mariana. Por isso, Péricles não estava interessado em novas aventuras sexuais, por mais selvagens, enlouquecedoras e melequentas que fossem.
Mesmo assim, não conseguia desligar o telefone. Ouvia embasbacado a voz rouca que lhe sugeria posições de ginasta romeno, locais clandestinos de fornicação, que lhe falava de orifícios dilacerados, seivas escorrentes, fluidos esguichados. Mais: Péricles começava a reconhecer aquela voz. Era sussurrada, sim, baixa, sim, mas conhecida.
Enquanto ela falava e gemia e uivava e rosnava, Péricles foi identificando-a. Quem era mesmo? Quem era mesmo?… Até que reconheceu. E quase gritou, ante à revelação. Dona Belinha! Isso: Dona Belinha, a mulher do gerente! Péricles quase desligou o telefone. Dona Belinha, cruz credo, como ele podia ficar ouvindo aquelas coisas da Dona Belinha? Era mesmo um safado! Imagina se o gerente, o Doutor Araújo, descobrisse. Além do mais, o gerente era mais do que o gerente — era o seu técnico. É. O técnico do time de Péricles na firma.
E Péricles, só Péricles, sabia o quanto trabalhava para conquistar a confiança do Doutor Araújo. Com muita raça, treinamento com bola, abdominais e horas extras ele se transformara em forte candidato ao cargo de subchefe de setor e à posição de quarto-zagueiro titular. Ansiava por conquistar a admiração do Doutor Araújo, tanto quanto almejava voltar aos bons tempos com sua mulher Mariana. Mas o Doutor Araújo ainda o encarava com reticências. Até porque era um momento importante: o time da firma ia disputar a semifinal do campeonato interno. Precisava, portanto, de todo o respeito do Doutor Araújo. Como, então, ele tinha a desfaçatez de ficar ouvindo aquelas sem-vergonhices da Dona Belinha?Péricles começava a se sentir mal com aquilo. Começava a se sentir culpado.
Foi quando uma fagulha de raciocínio trespassou seu cérebro azoinado – ora, era ela quem estava ligando! Ela que era a degenerada! Esse pensamento o tranqüilizou um pouco. Ficou ouvindo as libertinagens e pensando: Dona Belinha, quem diria…
De repente, uma outra voz emergiu do fundo da ligação. Era alguém que chegava ao recinto de onde Dona Belinha falava. Um homem. O Doutor Araújo! Sim, era a inconfundível, sisuda, ordeira e grave voz do Doutor Araújo, a mesma voz que lhe recomendava todos os domingos:
— Bola pro mato, seu Péricles! Não pipoque, seu Péricles!
— Bola pro mato, seu Péricles! Não pipoque, seu Péricles!
Ou, às segundas:
— Vamos controlar as ligações telefônicas, seu Péricles, precisamos enxugar despesas, seu Péricles.
— Vamos controlar as ligações telefônicas, seu Péricles, precisamos enxugar despesas, seu Péricles.
O Doutor Araújo era assim, chamava todo mundo de senhor, de “seu”. Era como o velho Foguinho. Grande homem, o Doutor Araújo. E, agora, o Doutor Araújo chegava perto do telefone em que Dona Belinha proferia todas aquelas imundícies. Péricles estremeceu. Será que o Doutor Araújo pegaria o telefone? Falaria com ele, Péricles?
Mas aí, súbito, ela desligou.
Péricles não conseguiu mais trabalhar. Foi para casa. Não conseguiu dormir, também. Ficou apenas pensando na Dona Belinha, nas coisas que ela dissera. Por que fizera aquilo? Será que ela tinha algum interesse nele? Se tivesse… Puxa vida, Dona Belinha era uma linda mulher… Realmente, uma linda mulher. Seu sorriso cândido, seus cabelos esvoaçantes, seus seios pétreos e, principalmente, suas pernas… Dona Belinha usava cada minissaia! Quando ia à firma, e isso acontecia quase todos os dias, os funcionários se perturbavam, não trabalhavam direito, ficavam só olhando de soslaio para as pernas compridas da Dona Belinha.
Dona Belinha, Dona Belinha… Que pernas! O pensamento de Péricles deslizava pelas pernas de Dona Belinha, apalpava-lhe o tornozelo delicado, subia pelas canelas macias, escalava o joelho redondo e já estava alcançando a curva interna das coxas quando a realidade, na forma das sobrancelhas cerradas da sua mulher Mariana, o abalroou. Foi um choque. Mariana pregava em sua testa um severo olhar de reprovação.
— Em que tu estás pensando? — quis saber ela, as mãos na cintura.
— Em que tu estás pensando? — quis saber ela, as mãos na cintura.
Péricles enrubesceu.
— Nada, nada…
— Só pode ser sacanagem!
— Nada, nada…
— Só pode ser sacanagem!
Como ela sabia? Que coisa. Mariana não confiava nele mesmo. Desde o dia em que a loirinha sardenta… Puxa, mas fazia tanto tempo! Péricles tinha de fazer algo para muar aquela situação. E já.
— É que pensava em nós, Marianinha. — Será que colaria? — Nos nossos bons tempos… — era uma tentativa, ao menos. Ela só balançou a cabeça, negativamente, e se foi, suspirando.
Não colou.
Péricles passou a noite se recriminando: tentava reconquistar sua mulher, fazer com que ela acreditasse que ele havia mudado, que não era mais o vira-latas de tempos atrás, e bastava um telefonema safado para não pensar em outra coisa, só em pernas de Dona Belinha, pernas de Dona Belinha!
E o Doutor Araújo? Como iria provar ao Doutor Araújo que podia ser titular da quarta-zaga e chefe de setor se estivesse pensando nas pernas da mulher dele? Belas pernas, era verdade. Pernas rijas, sólidas como dois troncos de figueira, e ao mesmo tempo lisas, tenras. De cetim. Mas eram as pernas da mulher do gerente! Oh, Deus! A culpa!
De manhã, Péricles foi para o trabalho estremunhado. Sua cara parecia um pastel. Passou o dia distraído, os colegas falavam com ele e ele:
— Ahn?
— Ahn?
Até que, no fim da tarde… ela apareceu. Quando a viu, Péricles sabia que ia acontecer algo. Algo grave. Aconteceu mesmo.
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