O QUE FREUD DIZIA DE MOISÉS
David CoimbraFreud afirmava que Moisés era egípcio.
Você compreende a dimensão disso? A importância que uma sentença dessas tem para a cultura ocidental?
Vou repetir:
“Freud afirmava que Moisés era egípcio”.
Estou falando de Moisés, o libertador dos hebreus, o fundador do judaísmo. Judaísmo que, não por acaso, é chamado de “a religião mosaica”. Pois Moisés não era judeu.
Freud, que, aliás, ERA judeu, fundamenta essa tese no sensacional livro “Moisés e o Monoteísmo”.
Os argumentos de Freud são muito convincentes, que Freud era um homem convincente. Ele começa analisando o nome de Moisés. Segundo a tradição judaica, Moisés significa, em hebraico, “porque das águas o tenho tirado”. Uma referência óbvia ao mito do nascimento do dito cujo: sua mãe hebreia o teria lançado às águas do Nilo dentro de um cesto bem calafetado com betume e pez, a fim de escapar à perseguição do faraó aos filhos do seu povo. O faraó havia ordenado a morte de todos os bebês masculinos judeus como uma forma um tanto radical de controle populacional dos escravos, que, segundo ele, se reproduziam com preocupante velocidade. O cesto teria sido descoberto por uma princesa egípcia, que se encantou com o pequerrucho e o salvou e o criou como se fosse seu filho. Foi essa princesa quem deu o nome de Moisés a Moisés. Mas, ora, se ela era egípcia, por que daria um nome hebreu à criança que, alegava, era filho de seu ventre?
Arrá!
Freud explica, então, que Moisés é um nome egípcio, que quer dizer, apenas e tão-somente, “filho” ou “criança”. Os egípcios tinham o hábito de pôr essa partícula nos nomes dos filhos. Tipo: “Amon-mose”, significando “Amon-uma-criança”, forma contraída de “O deus Amon deu uma criança”.
O mesmo ocorre com a partícula “son” nos nomes dos escandinavos. Son, você sabe, é “filho”. Logo, Cleberson é o filho de Cléber, Jameson é o filho de James, Roberson é o filho de Robert, e por aí adiante. Visite uma favela brasileira e você vai ouvir as mães gritando:
_ Anderson, Róbson, Wilson, Maílson, Marilson, já pra casa!
É que há muitos escandinavos nas favelas brasileiras.
Mas Freud não se baseou só no nome de Moisés para provar que ele era egípcio. Citou também um caso do qual foi protagonista um velho conhecido nosso: Sargão, o primeiro personagem da História, que, ao nascer, também viu-se acomodado dentro de um cesto e largado nas águas de um rio, o Eufrates, sendo depois recolhido por um homem chamado Akki, “o tirador de água”. O resto da história é um enredo já conhecido.
Freud explica que o mito do nascimento do herói é semelhante em várias culturas. O primeiro talvez tenha sido o de Sargão, mas depois se reproduziu em Moisés, Gilgamesh, Ciro, Rômulo, Édipo, Karna, Páris, Telefos, Perseu, Hércules, Anfion, Zetos…
Mas o grande argumento de Freud, a estocada genial e definitiva é quando ele lança mão da história de Akhenaton.
Akhenaton é o faraó mais intrigante do Egito, porque foi um revolucionário, um rebelde. Naguib Mahfuz, o egípcio que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1988, escreveu sobre ele um romance, “Akhenaton, o Rei Herege”. Trata-se de um belo romance. O narrador da história entrevista pessoas que fizeram parte do governo de Akhenaton e conviveram com ele. Moisés poderia ser um dos entrevistados. Porque Freud acredita que Moisés era um sacerdote da religião fundada por Akhenaton, uma religião… monoteísta. A primeira religião monoteísta do mundo.
Trata-se de uma história tão interessante que merece um capítulo exclusivo para ela.
Vamos em frente.
Aguarde.
Nenhum comentário:
Postar um comentário