Não acreditar em cifras oficiais sobre o analfabetismo significa dizer que essas nem sempre são confiáveis. Para que uma pessoa seja considerada alfabetizada basta que saiba ler e escrever, mesmo que precariamente.
É melancólico perceber que um país considera uma pessoa alfabetizada simplesmente por ela ler e escrever. A maioria destes “alfabetizados’ não tem a capacidade de ler e entender, de fato, aquilo que estão lendo. Qualquer texto é meramente lido e normalmente não é entendido e assimilado.
Quem apenas lê, sem ter a capacidade de fazer uma análise crítica sobre o que está lendo, dificilmente terá condições de exercer, plenamente, sua cidadania. Como esperar que alguém que não tem condições de entender um texto simples, tenha a capacidade de realizar com segurança e qualidade a escolha de seus governantes sem ser ludibriado. Num país onde alguns de seus cidadãos votam em alguém apenas por este ter uma carinha bonitinha, apenas podemos dizer que estes são analfabetos políticos.
A alfabetização deveria ser entendida como uma forma de desenvolver a capacidade crítica da sociedade. Uma sociedade onde seus membros tenham a capacidade de desfrutar de uma leitura de qualidade e conseqüentemente de uma escrita de qualidade, são requisitos para termos cidadãos conscientes de seus deveres e principalmente seus direitos, o que não interessa à classe dominante.
A leitura na escola é apresentada como uma obrigação. O aluno logo depois de aprender a ler é obrigado a fazer isso apenas através de livros que são indicados pelo corpo docente da escola acarretando, invariavelmente, certa aversão a leitura, isso porque a leitura por obrigação se torna chata. Quando chega ao Ensino Médio esse mesmo aluno é obrigado ler clássicos da literatura, o que poderia até ser o certo, mas como a leitura não foi prazerosa na mais tenra idade escolar essa leitura será pouco satisfatória, também neste período escolar um pouco mais maduro.
Ninguém tem o gosto pela leitura como algo nato. Isso se aprende com o passar do tempo. A imaturidade do aluno fará que, se a leitura não lhe for apresentada como algo prazeroso e gostoso isso nunca irá tornar-se um hábito. Mesmo tendo que ler textos clássicos o aluno somente irá ser um leitor assíduo e terá uma leitura de qualidade se ele tiver a oportunidade de também ler assuntos que não sejam diretamente ligados a nenhuma disciplina escolar.
Vivemos numa sociedade onde valorizamos muito o corpo. Fazemos exercícios físicos para termos um corpo saudável e bonito, mas em contrapartida esquecemos de exercitar nosso cérebro. O exercício cerebral pode e deve ser feito através da leitura, mas de uma leitura gostosa que nos permita “viajar” pela história que estamos lendo. Às vezes ler uma fábula é melhor exercício para o cérebro do que apenas ler textos técnicos e didáticos.
Uma pessoa habituada com a leitura se torna um indivíduo mais independente e desenvolve a capacidade de interagir e interferir com qualidade na sociedade onde está inserido. A curiosidade desenvolvida pelo leitor fará que este leia ainda mais e com isso ele será exposto a novas experiências e com isso aumentará seu conhecimento. Através deste conhecimento se desenvolverá e crescerá como cidadão além de desenvolver a capacidade de contribuir para o desenvolvimento do meio onde está inserido.
A alfabetização, como leitores de qualidade, nos fará entender e intervir melhor no mundo e isso será ainda mais produtivo e eficiente se essa capacidade for desenvolvida desde a mais tenra idade, não ficando apenas para quando se chega ao Ensino Médio. A leitura crítica deve ser incentivada desde que o aluno começa a desenvolver a habilidade da leitura.
O brasileiro não gosta de ler. Ouve-se essa afirmação quase que diariamente, mas não podemos esquecer que o gosto pela leitura somente estará presente na vida do cidadão se este tiver sido estimulado, desde os primórdios da sua alfabetização, para desenvolver tal comportamento. O desenvolvimento do prazer pela leitura deve ser encarado como uma atitude que a escola tem que adotar, de forma menos técnica e mais prazerosa, desde o dia em que a criança aprende a ler.

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