11 de abril de 2017

EDUCAÇÃO EMANCIPADORA E AS TEORIAS CURRICULARES

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Trabalho apresentando, em novembro de 2016, na graduação de Pedagogia da Unopar Passo Fundo-RS, escrito em colaboração com Brenda de Fátima Menezes da Rosa, Fabiana Schul Vieira, Marinalia Moreira Freiras, Nelisa Adriana Worm, Paulo Ricardo Pase e Simone Picolotto.

1  INTRODUÇÃO

A Sociologia da Educação nos apresenta a educação como responsabilidade não apenas na escola, mas sim de toda a sociedade. Neste aspecto, conforme observamos em Tozoni-Reis ([20--]) a escola deve ser pensada considerando a relação entre educação, escola e sociedade.
No decorrer desse trabalho, buscaremos construir uma conceituação breve sobre o papel da escola na formação do sujeito, numa perspectiva emancipadora, considerando a função social da escola nos dias atuais, tendo como base os preceitos da Constituição Federal de 1988 e da Lei 9394/96.
Em um segundo momento, buscaremos entender um pouco sobre as Teorias do Currículo e como elas influenciam a prática docente no ambiente escolar. Nesse sentido buscaremos responder qual ou quais dessas teorias conseguem contribuir para a formação de um sujeito crítico e que tenha suas capacidades de lutar por seus direitos plenamente desenvolvidas.
Esse trabalho foi estruturado em três capítulos incluindo a presente introdução que apresentou uma breve contextualização do tema e os objetivos do estudo; o segundo capítulo que apresentará uma breve dissertação sobre a importância da educação no sentido de emancipar o sujeitos, bem como um breve relato sobre as Teorias do Currículo e como essa contribuem na formação desse sujeito e o terceiro capítulo que apresentará as considerações finais.

2  EDUCAÇÃO COMO FERRAMENTA DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

Traremos, de imediato, um breve conceito do que é educação. No contexto em que estamos pesquisando, “a educação é um fenômeno social, histórico e cultural. [...] ocorre em todos os contextos intervenientes nos quais se situam o homem. [...] não podemos dizer que a educação ocorre somente na escola, mas também na comunidade e na família” (FERRONATO, 2014, p. 56).
Nesse contexto da importância da Sociologia para a educação, julgamos pertinente apresentar o que Correia e Batista (2007) nos trazem sobre a influência de Durkheim e Marx sobre esse tema.
Durkheim é um marco no surgimento da sociologia como ciência e foi um dos pioneiros na inclusão da sociologia no currículo acadêmico e na formação de professores. “Essa concepção de educação e do papel do professor influenciou as práticas pedagógicas adotadas no brasil ao longo da história da educação e a atividade docente que nela se realiza” (CORREIA; BATISTA, 2007, p.2).
Marx colocava a educação como parte de uma superestrutura utilizada pela classe dominante para legitimar a dominação da classe do proletariado. Opunha-se a qualquer currículo baseado em distinção de classes e defendia que a educação poderia ser instrumento mobilizador das classes trabalhadoras (CORREIA, BATISTA, 2007).
No Brasil, um marco das mudanças na educação é a LDB de 1996 onde temos que a educação, além de ser responsabilidade do Estado, através da escola, é, também, responsabilidade da família e de toda a sociedade e deve se preocupar com o pleno desenvolvimento humano, preparando não apenas para o mercado de trabalho, mas também para o pleno exercício da cidadania.
Além disso, deve se basear na igualdade de condições e pluralidade de ideias. Nesse sentido, Freire (2002, p. 17) nos ensina que “faz parte igualmente do pensar certo a rejeição mais decidida de qualquer forma de discriminação”.
Maciel (2010) destaca que, mesmo diante do viés democratizador da LDB/96, a preocupação maior da escola parece que tem sido em formar mão de obra qualificada para atender as necessidades da economia de mercado na perspectiva neoliberal.
Gadotti (2000) defende que devemos reconstruir os fundamentos e a estrutura organizacional das escolas na direção de uma educação de qualidade, preocupada em desenvolver os talentos e as habilidades de cada aluno, de acordo com suas possibilidades, para que esse tenha melhorada sua capacidade de explorar os temas de estudo.
 Nesse sentido, cabe ao Estado atentar para que a escola pública seja instrumento facilitador no desenvolvimento integral do educando, buscando formar o sujeito para que esse tenha condições de exercer de forma plena sua cidadania em todos os seus aspectos, pois “é na vida escolar que os educandos vão ter efetivamente as primeiras oportunidades para exercer essa cidadania” (SOARES et al., 2012, p. 1861).

2.1 A INFLUÊNCIA DAS TEORIAS CURRICULARES NA EDUCAÇÃO TRANSFORMADORA

Nessa seção iremos tentar identificar, entre as Teorias do Currículo quais oportunizam aos sujeitos a “[...] apropriação de elementos da cultura que se transformem, na prática social, em instrumentos de luta no enfrentamento da desigualdade social ” (TOZONI-REIS, 2010, p. 6).
A teoria curricular busca compreender e descrever fenômenos da pratica curricular. Em Ferronato (2014) temos que o currículo, mais do que uma simples enumeração de conteúdos e diretrizes a serem trabalhados em sala de aula pelos professores, ao longo das diferentes fases da vida escolar dos estudantes, é uma construção histórica e também cultural que sofre, ao longo do tempo, transformação em suas definições.
Ferronato (2014) nos ensina que é possível identificarmos três grandes teorias relacionados ao currículo: teorias não críticas, teorias críticas e teorias pós-críticas e “[...] que as tendências pedagógicas são manifestações de algo muito maior e mais complexo: as teorias curriculares” (FERRONATO, 2014, p.41).
As Teorias Tradicionais ou não-críticas, se preocupavam em formar mão de obra para trabalhar nas fábricas, sendo que a própria escola passou a ser pensada como uma. A preocupação da escola deveria ser a de moldar os indivíduos para ser essa mão de obra, sem o objetivo emancipador.
Silva (2007, apud FERRONATO, 2014, p. 42) explica que essa teoria teve como principal representante Bobbit, que escreveu sobre o currículo em um momento no qual diversas forças políticas, econômicas e culturais procuravam envolver a educação de massas para garantir que sua ideologia fosse garantida. “O modelo que Bobbit propunha era baseado na Teoria de Administração Econômica de Taylor e tinha como palavra‐chave a eficiência. O currículo era uma questão de organização e ocorria de forma mecânica e burocrática” (MALTA, 2013.p 344-345).
No contexto das Teorias Críticas, de acordo com Silva (2010 apud FERRONATO, 2014) o maior representante no contexto das discussões críticas é o pensador Giroux, que concebe o currículo como uma possibilidade de libertação e emancipação, na qual os conteúdos expressam uma visão política.
As Teorias críticas se preocupam com o desenvolvimento mais completo do educando, de forma a desenvolver um processo de aprendizagem que crie um sujeito crítico, mas sem abrir mão de conhecimentos clássicos e científicos. “[...] a escola [...] não pode abrir mão de sua responsabilidade específica que é a de garantir que os sujeitos sociais se apropriem – de forma crítica e reflexiva – do saber elaborado pela cultura a qual pertencem” (TOZONI-REIS, 2010, p. 7).
Em Ferronato (2014) podemos identificar outro importante conceito das teorias críticas: o de currículo oculto, que consiste, basicamente, em todos aqueles aspectos que compõem o ambiente escolar, mas que não estão relacionados como normas escritas: atitudes, comportamentos, valores e orientações.
O terceiro grupo das teorias curriculares é aquele que se convencionou chamar de Teorias Pós-críticas que, de acordo com Ferronato (2014), pode ser melhor traduzido pela palavra multiculturalismo. “No contexto educativo, a educação multicultural corresponde a uma ideia de que a educação liberta de preconceitos e é promotora da diversidade cultural e do respeito aos grupos sociais, étnicos e sexuais [...]” (FERRONATO, 2014, p. 49)
Essa teoria critica a desvalorização do desenvolvimento cultural e histórico de alguns grupos étnicos e os conceitos da modernidade, como razão e ciência. Outra perspectiva desse currículo é a fundamentação no pós-estruturalismo que acredita que o conhecimento é algo incerto e indeterminado.
Assim sendo, a função do currículo, mais do que um conjunto coordenado e ordenado de matérias, seria também a de conter uma estrutura crítica que permitisse uma perspectiva libertadora e conceitualmente crítica em favorecimento das massas populares. As práticas curriculares, nesse sentido, eram vistas como um espaço de defesa das lutas no campo cultural e social.
Retomando o questionamento inicial dessa seção, é nas teorias críticas e pós-críticas que o ocorre a possibilidade da apropriação de elementos da cultura que irão se transformar em instrumentos de luta no enfrentamento da desigualdade social.
Essa perspectiva transformadora das teorias críticas se dá através das várias tendências pedagógicas relacionadas a elas. Essas tendências, defendem, entre outras coisas, que a escola deve atuar no sentido diminuir as diferenças sociais, através de uma educação que permita a emancipação do indivíduo e o processo de formação deve se basear no diálogo e respeito às individualidades.
As Teorias Pós-críticas servirão de instrumento de enfrentamento da desigualdade, tendo em vista que tem seus “estudos voltados paras as necessidades contemporâneas: Educação e Sexualidade, Direitos Humanos, Antropologia Cultural, e Multiculturalismo. Ressaltam a questão do poder, cultural, significação e identidade” (FERRONATO, 2014, p. 47)

3  CONCLUSÃO

Vários são os dispositivos legais e teorias que versam sobre a necessidade que a escola, principalmente a pública, tem de atuar no sentido de contribuir para a formação de um sujeito crítico que esteja preparado para atuar e transformar o meio social onde esteja inserido.
Ao mesmo tempo que dispositivos como a Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação trazem que é responsabilidade do Estado propiciar que essa educação transformadora e inclusiva ocorra, percebemos que esse mesmo Estado, muitas vezes, não atua no sentido de garantir que isso ocorra.
Na perspectiva das teorias tradicionais do currículo, a escola deveria se preocupar apenas em formar mão de obra para atuar no mercado, numa perspectiva neoliberal, onde a escola é vista como um fábrica que deverá formar as pessoas de forma padronizada.
No entanto, se considerarmos as teorias críticas e pós-críticas e suas tendências pedagógicas, a escola pode concorrer para a formação de um cidadão plenamente desenvolvido e que possa atuar de forma transformadora na sociedade.
Nas Teorias Críticas e nas Pós-críticas a educação deixa de ter o foco na formação de mão de obra para atender a demanda do mercado e passa a ser encarada como ferramenta de mobilidade social. É através da educação que o cidadão irá adquirir consciência de seus direitos. Mais do que isso, é através da educação que o sujeito irá criar condições de lutar por esses direitos e, dessa forma, agir diretamente na transformação da sociedade.
Como podemos perceber não basta apenas normas escritas para que a escola possa desempenhar, de forma efetiva, sua função social. Para que isso ocorra necessitamos que o Estado cumpra sua responsabilidade no financiamento da escola pública e que a educação seja vista e tratada, de fato, como prioridade.
É necessário, também, que toda a comunidade escolar: direção, professores, pais, alunos e sociedade, de um modo geral, atuem no sentido de garantir que a educação, através da escola, seja instrumento de intervenção social e que possa efetivar o desenvolvimento de um cidadão crítico, atuante e ciente de todos os seus direitos e deveres, devidamente preparado para viver em sociedade.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF. Disponível em: <https://goo.gl/SEmrDs>. Acesso em: 10 out. 2016.
______. Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF, Disponível em: <https://goo.gl/Zt94NW>. Acesso em: 10 out. 2016.
CORREIA, Deyse Morgana das Neves; BATISTA, Maria do Socorro Xavier. A importância da Sociologia da Educação na formação do educador: A visão dos alunos e professores do curso de Pedagogia da UFPB. In: ENCONTRO DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA, 10., [2007], [João Pessoa]. Anais... . João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2007. Disponível em: <https://goo.gl/TQPzak>. Acesso em: 16 out. 2016.
FERRONATO, Raquel Franco. Legislação da educação e sua relação com as políticas educacionais. In: BARUFFI, Monica Maria; SILVA, Samira Kfouri da; FERRONATO, Raquel Franco. Políticas Educacionais. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2014. Cap. 2. p. 39-84.
____________. Sociedade e currículo escolar: conceitos e implicações. In: FERRONATO, Raquel Franco et al. Teorias e Práticas do Currículo. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2014. Cap. 1. p. 1-64.
FREIRE, PauloPedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002. (Coleção leitura). Disponível em: <https://goo.gl/Mfnb2C>. Acesso em: 12 out. 2016.
GADOTTI, Moacir. Perspectivas atuais da educação. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, v. 14, n. 2, p.03-11, jun. 2000. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/s0102-88392000000200002. Disponível em: <https://goo.gl/3DOhfe>. Acesso em: 15 out. 2016.
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MALTA, Shirley C. L.. Uma abordagem sobre currículo e teorias afins visando à compreensão e mudança. Espaço do Currículo, João Pessoa, v. 6, n. 2, p.340-350, ago. 2013. Disponível em: <https://goo.gl/wLGZNF>. Acesso em: 20 out. 2016.
SOARES, Gisele Lángaro et al. A FORMAÇÃO DO CIDADÃO NO AMBIENTE ESCOLAR: DA CONSCIENTIZAÇÃO À INTERVENÇÃO NA PRÓPRIA REALIDADE. Revista Monografias Ambientais, [s.l.], v. 8, n. 8, p.1858-1869, 7 ago. 2012. Universidade Federal de Santa Maria. http://dx.doi.org/10.5902/223613086193. Disponível em: < https://goo.gl/DnZI3j>. Acesso em: 20 out. 2016.
TOZONI-REIS, Marília Freitas de Campos. A contribuição da Sociologia da Educação para a compreensão da educação escolar. [20--]. Texto produzido especialmente para a disciplina Sociologia da Educação do Curso de Pedagogia oferecido pela UNESP através da UNIVESP-TV. Disponível em: <https://goo.gl/G0AiqW>. Acesso em: 10 out. 2016.

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